O luto de pais vivos
Independentemente da idade, em algum momento sente-se a necessidade de falar sobre o histórico familiar dentro da psicoterapia. Mais especificadamente, sobre a relação com os pais. Especialmente em adultos, existe certa resistência de abordar esse tema. O argumento é que se tratam de águas passadas.
As configurações familiares são infinitas, e não existe fórmula mágica. Obviamente, existem algumas condições que devem ser respeitadas, incluindo segurança e nutrição, por exemplo. Porém, por fim, o que vai prevalecer é a leitura que cada um faz desses vínculos.
O luto de pais falecidos muitas vezes é denso. O amargor das palavras não ditas é bem capaz de arruinar uma vida inteira. Quando alguém parte (para a morte, ou para além do nosso alcance), nos deixa sozinhos para metabolizar todas as vicissitudes da relação.
Alguns pacientes se questionam, angustiados, o motivo de os pais ocuparem tanto espaço nas sessões de terapia. E eu explico, sempre e de novo: como poderia ser diferente? Afinal, estamos falando daqueles seres que te introduziram ao mundo. Sua leitura da vida é atravessada pela tonalidade da leitura deles. Seja pai e mãe - ou tios, avós: todos aqueles que se tornaram referência de cuidado e personificaram (bem ou mal) nossas expectativas arquetípicas ligadas ao paterno e materno.
Elaborar o luto de pais vivos, muitas vezes, constitui como etapa crucial ao processo de desenvolvimento da própria personalidade. Isso porque nem sempre a vivência interna corresponde à vivência externa. A realidade psíquica é construída na interação entre diversas camadas de conteúdos.
Em alguns casos, percebe-se que os pais foram “lidos” de uma maneira positiva demais, mascarando situações de negligência e desatenção. Entende-se que nos anos de infância essa distorção foi necessária, para que o psiquismo fosse protegido. Porém, na vida adulta, algumas coisas precisam ser movidas de lugar, para que se abra espaço para outras vivências.
Em outros, a constatação é que os pais foram “lidos” de modo muito negativo, e no processo de humanização dessas pessoas tão falhas, perdoa-se os erros de parentalidade, entendendo que foi feito o que era possível, com os recursos disponíveis.
Uma outra possibilidade: os pais podem mudar. Às vezes, nós mesmos somos responsáveis pelo processo de transformação desses pais. E se ficarmos com o olhar fixado na infância, perderemos as pistas dessa metamorfose.
É importante ressaltar que não existe um caminho certo para lidar com esses conteúdos. Nem todos os erros são perdoáveis, e o perdão não é a condição básica para seguir em frente.
Elaborar o luto dos pais (vivos ou mortos) significa poder vê-los com os olhos da vida adulta. Isso nos concede maior liberdade de ser. Os vínculos precisam ser reconfigurados de acordo com cada momento da vida - algo que fez sentido ontem pode deixar de fazer sentido amanhã.
Somente no processo de elaboração de luto desses pais (ou tios, avós) é que podemos trabalhar nossos complexos parentais. E isso significa trabalhar materno e paterno dentro de nós mesmos, sem depender de outras figuras (presentes ou mentalmente invocadas). O resultado? Responsabilização amorosa por si mesmo.
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Rebeca Moreira Nalia é especialista em Psicologia Junguiana e graduada em Psicologia. Atua como psicóloga clínica, supervisora, professora e mediadora de grupos de estudo voltados para a Psicologia Analítica. Faz parte do Instituto PSIADI, que promove cursos voltados para o paradigma junguiano e diálogos interdisciplinares.
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